Informações Apresentadas pela Mídia de forma Amadora sobre a Aquicultura brasileira, só prejudicam o país e a atividade

Dr. Ricardo Pereira Ribeiro

Na data de 29 de maio de 2019, a Folha de São Paulo publicou em seu Caderno de Ambiente, de forma extremamente amadora e sem fundamentação científica a matéria intitulada “Tilápia avança na Amazônia e gera preocupação sobre o impacto ambiental”,  caso fosse uma matéria de opinião seria menos mal, porém não é o caso, o Jornal de grande circulação, apresenta informações na qual induz o leitor a interpretações totalmente equivocadas sobre o comportamento das tilápias, atribuindo a elas características totalmente improváveis.

A matéria foi realizada no Perú na região Turística do Distrito de Sauce, Município de Tarapoto, Amazônia peruana, onde está localizada uma grande lagoa natural, denominada Lagoa Azul (6o 42´16.24”S – 76o 12´47.53”O), a 604m de altitude, com temperatura média de 27oC e chuvas distribuídas em todas as estações do ano, como é comum em toda a Amazônia. Porém é importante informar a todos que essa Lagoa é hoje uma lagoa urbana, localiza-se em suas margens o distrito de Sauce, a qual pelo que consta, apesar de ser um pequeno distrito, não possui sistema de tratamento de esgoto (Diseño del sistema de saneamiento básico rural en el caserío Sauce de Alto Uruya, distrito de Neshuya, Ucayali, 2018, Chávez Cabellos, Boris Mirko).

A Lagoa Azul trata-se, portanto de uma lagoa urbana, no meio científico, já consta plenamente comprovado que em ambientes aquáticos impactados por resíduos urbanos, ou como este ambiente que estamos tratando, lagoas urbanizadas, há uma alteração significativa das condições limnológicas dos seus parâmetros de qualidade de água, especialmente quanto ao volume de nutrientes disponíveis na coluna d´água destes ambientes, consequentemente provocando alterações nas relações e biovolumes e diversidade em todas a comunidades aquáticas que compõem este ambiente. A tilápia do Nilo se adapta bem nestes ambientes já impactados.

Região de Sauce e Lagoa Azul – Amazônia Peruana

Também a literatura especializada apresenta vários casos de reservatórios onde a tilápia do Nilo apresentou um crescimento populacional exponencial (Minte-Veras, Petrere Jr. 2002; Agostinho et al. 2007)”. Minte-Veras    trabalhou na Represa Billings em São Paulo e afirmou o seguinte sobre a tilápia: “Neste reservatório a Tilápia do Nilo está em processo de naturalização”. “No Nordeste do Brasil as tilápias são dominantes em pequenos reservatórios, porém na bacia do Paraná as tilápias não são comuns (Agostinho e Petrere, 1993)”. Segue afirmando que em reservatórios urbanos há altas incidências de tilápias e isto se deve a uma combinação de fatores como: alto potencial reprodutivo, capacidade de consumir o plâncton do reservatório, alta resistência a baixa concentração de oxigênio dissolvido, tolerância a contaminantes químicos e baixa pressão de predação, características comuns nestes tipos de reservatórios urbanos altamente impactados e praticamente vazios do ponto de vista ictiológico (grifo do autor).

Mais uma vez a informação tem duas vertentes, é importante conhecê-la de maneira completa e não parcialmente.

Os autores citam o trabalho de Bittencourt et al.(2014) como caso de sucesso da tilápia como invasora e colonizadora em um igarapé na região amazônica, porém este trabalho foi conduzido em uma lagoa deste igarapé, dentro do Município de Macapá-AM, Brasil, portanto um igarapé urbano, rico em material orgânico de origem humana, e sem a presença dos grandes predadores nativos. Mais uma vez, ambientes impactados pela ação dos resíduos urbanos desculpe a redundância.

Indo na mão contrária ao que enaltece a tal matéria do Jornal, em um Seminário realizado no Perú, com o objetivo de discutir o Desenvolvimento da Aquicultura na Amazônia Continental, ainda em 2000, promovido pelo Instituto de Cooperación Interamericano para la Agricultura (IICA), uma de suas conclusões é a seguinte, “Deve-se autorizar novamente a criação da espécie tilápia nilótica, sendo necessário que se revogue a D.S. 002-91, por não ter sustentação técnica e já haver passado mais de nove anos de sua promulgação, já que a impossibilidade dos aquicultores de criarem a tilápia tenha causado um grande mal-estar social, por um lado e, por outro lado, os consumidores deixaram de ter acesso a um produto de alto valor nutritivo a um baixo custo. Assim mesmo, não há conhecimento de que o IICA, por encargo do Ministério da Indústria Pesqueira do Perú, tenha encontrado algum resultado de que a proibição da criação da tilápia tenha trazido algum benefício ambiental ou prevenido algum impacto, dando com resultado que esta espécie não tem causado impactos ambientais negativos no ecossistema da região, ao contrário disso, no caso da Selva Alta, esta espécie tem melhorado o ecossistema, já que nesta parte do país, já que os rios são de baixo caudal e rápido fluxo, as populações de peixes são pobres, já como a variedade dos mesmos. Também outra razão para a suspensão, da proibição da criação da tilápia é o grande mercado de exportação … “ e continuam informando sobre a necessidade de introdução de novas linhas melhoradas.

Desse modo a matéria publicada é tosca e desprovida de um mínimo de fundamentação técnico científica, vamos apresentar algumas pérolas da mesma, cita opiniões de ONG´s e não dão oportunidade de ouvir o outro lado e não se dão ao mínimo cuidado de verificar os dados científicos sobre o tema, o qual sem dúvidas gera controvérsias, porém é consenso entre cientistas sérios, precisa ser estudado apropriadamente e não apenas in vitro, pois aí as conclusões podem ser enviesadas para um lado ou para outro.

A matéria pergunta a um leigo que diz “É impossível controlar. A tilápia é tão maldita que não sei se voa ou vai por dentro da terra, mas é encontrada fora dos tanques. Encontramos tilápias grandes fora nos rios e, para chegar a esse tamanho, comeram ovas de outros peixes.  É um erro gravíssimo que estão cometendo”. Ora bolas, elas devem fazer feitiçaria também…, como se publica uma coisa dessas??? Isso ao invés de informar, cria desinformação e controvérsia e repúdio sem direito de defesa. Muito me choca um veículo de comunicação que se diz defensor da verdade de dos Direitos de Todos.

A tilápia espécie Oreochromis nilóticos é uma espécie Fitoplanctófaga e no cativeiro possui tendência a onivoria (pode se alimentar de alimento tanto de origem animal quanto de origem vegetal), logo seu hábito alimentar não é carnívoro e nem piscívoro, não é uma predadora. Portanto, segundo Agostinho (1993), tem pouca probabilidade de sucesso na colonização dos ambientes naturais.

Num estudo de caso no reservatório de ITAIPU, constatou-se que a tilápia (Oreochromis niloticus) está presente no reservatório e tributários (Nota Técnica nº31/2013 GBA/SBF/MMA). De acordo com o Segundo o Plano Nacional de Recursos Hídricos, Caderno da Região Hidrográfica do Paraná (2006), o reservatório de ITAIPU está localizado na Unidade Hidrográfica Paraná (sub-1), Paraná 3 (sub-2). No estado do Paraná, faz parte de 01 das 16 bacias que compõem a base hidrográfica de gestão, de acordo com este mesmo Plano o Estado do Paraná em 2005, possuía 90% da produção total de peixes dedicada ao cultivo da tilápia, com cerca de 5.000 piscicultores que realizam a produção de peixes em escala comercial, dos quais aproximadamente são autorizadas, perfazendo até a presente data, 940 outorgas para o uso de águas com respectivas 1150 licenças ambientais, para a finalidade relacionada à piscicultura, destes destacam-se sendo para a Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3), onde o reservatório está localizado 50 % concentram-se a maioria dos piscicultores do Estado do Paraná (Maranhão 2013). Esta atividade de produção empresarial de tilápias nesta Bacia e em todo o Paraná está registrada desde a década de 80 (Nota Técnica MMA nº31/2013).

O Parecer Técnico do IAP (Maranhão 2013) demonstra que: ‘Em diversas regiões do reservatório existem lagoas marginais onde ocasionalmente, por motivo da oscilação do nível do reservatório, há a necessidade de intervenção para salvamento de ictiofauna (por meio de despesca utilizando rede de arrasto). O atendimento destes eventos revelou a presença de exemplares de tilápia com pesos superiores acima de 20 gramas em 100% das lagoas manejadas.

A ocorrência dos escapes também foi confirmada pelo Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais – Instituto GIA (Boeger e Ribeiro, 2011). Ressaltam os autores que neste projeto foi realizado o mapeamento genético das linhagens das pisciculturas da região e dos peixes capturados no reservatório (Figura 03), que além de confirmarem a origem das tilápias, também evidenciou que não há cruzamentos com peixes residentes do reservatório de ITAIPU.

Este Grupo coordenado pelos pesquisadores Boeger e Ribeiro, 2010, também citados por Maranhão (2013), modelaram a distribuição potencial da O. niloticus. Ao final, esses dados subsidiaram a elaboração de uma matriz de risco do estabelecimento de populações de tilápia nos sistemas fluviais estudados. A pesquisa não identificou, nos dois sistemas analisados, o estabelecimento de populações autossustentáveis de O. niloticus e T. rendalli, mesmo em detrimento da constante pressão de propágulos/colonização ocorrida por mais de 40 anos.

Segundo estes autores, a análise de risco considerou as características ligadas aos processos de estabelecimento, dispersão e impacto de tilápias nos sistemas. No reservatório de ITAIPU, o processo de Estabelecimento ficou classificado como “Risco Muito Baixo ao Moderado”; a Dispersão como “Risco Muito Baixo” e por fim, o Impacto como “Risco Muito Baixo a Baixo”. De acordo com os autores, devido ao baixo tempo de residência, o reservatório de ITAIPU pode ser caracterizado, em seu corpo central, como um sistema lótico, que leva a manutenção da qualidade ambiental do sistema e por sua vez, um estado de resiliência ambiental ao estabelecimento das tilápias.

Conclui Maranhão (2013) que todos estes estudos sobre esta bacia do Rio Paraná, Reservatório de ITAIPU gerou uma análise Integrada: Impactos ambientais relatados em decorrência da tilápia X Características bióticas e abióticas do reservatório de Itaipu, são fatores impeditivos para o estabelecimento das tilápias:

Eutrofização, aumento da turbidez e alterações de parâmetros químicos da água.

As menções de impacto descritas foram baseadas em estudos conduzidos em ambientes com condições limnológicas e hidrodinâmica diferenciadas do reservatório de ITAIPU, como o lago Paranoá, que possui uma alta pressão de uso do entorno, apresentando inclusive problemas de saneamento e distinto índice de estado trófico (IET).

A análise de resultados produzidos em tributários represados do rio Paraná (rio Tietê e Paranapanema) – onde há o emprego de tanques-rede destinados a tilapicultura, há mais de uma década – não houve a confirmação de que a atividade zootécnica promove alterações significativas da qualidade de água e de seu estado trófico (Malassen et al., 2008; Ramos et al., 2008), cujos padrões são estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, Resolução nº357/2005.

No reservatório de ITAIPU, de acordo com Maranhão (2013), o monitoramento da qualidade da água realizado pelo IAP, órgão do Estado responsável por essa atividade, em parceria com a ITAIPU Binacional, vem demonstrando, com base nas concentrações de clorofila a, fosfato total e transparência da água, medidos na zona eufótica, que em média, não houve alterações nos padrões dos IETs dos tributários e do corpo principal do reservatório de ITAIPU, no decorrer de 20 anos, em detrimento da presença da tilápia encontrada neste ambiente por 30 anos, descaracterizando, no lago de ITAIPU, eventos de degradação da qualidade de água em função da presença da tilápia. A série histórica apresentada nestes estudos demonstra que a variabilidade temporal do IET no reservatório de ITAIPU é pronunciada pela variação sazonal, de maneira cíclica no decorrer dos anos. Esse padrão nos leva a considerar que os regimes de chuvas, temperaturas e hidrodinâmica do ecossistema em questão, são os fatores que mais influenciaram a degradação da qualidade da água.

Monitoramentos da Pesca realizados pela ITAIPU BINACIONAL e UEM e também, pelos dados estatísticos produzidos pelo monitoramento da pesca do IBAMA (Nota Técnica nº 11 COOPE/IBAMA, emitida em 13.04.2010) o qual informa que o fato do uso de reversão sexual das tilápias é um dos fatores que dificultam a colonização desta espécie devido à dificultar as reproduções indesejáveis.

Os sistemas produtivos também favorecem a sanidade e dificultam a disseminação de enfermidades, pois preconizam a adoção de medidas mitigadoras aplicáveis somente com atendimento da legislação existente – Certificação Sanitária, além da necessidade de emissão de fiscalização das unidades produtoras de alevinos destinados a aquicultura, com profissionais médicos-veterinários que monitoram permanentemente as instalações produtoras e controlam os deslocamentos por meio dos Guias de Transporte Animal (GTA).

Gostaria de finalizar este texto demonstrando um descontentamento contra este tipo de abordagem unilateral da informação neste tempo em que se critica tanto aquilo que se denomina “Fake News” e muitos se intitulam defensores da verdade e muitas vezes não se preocupam em procurar fundamentar adequadamente as informações que divulgam e causam um grande mal a uma atividade e a um país inteiro que tenta se firmar no mercado internacional da produção de peixes.

Prof. Dr. Ricardo Pereira Ribeiro – Professor Associado – Universidade Estadual de Maringá – Piscicultura
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4 comentários em “Informações Apresentadas pela Mídia de forma Amadora sobre a Aquicultura brasileira, só prejudicam o país e a atividade

  1. Muito bom texto professor, esclarecedor e merece ser divulgado!

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    1. Não é correto Laís um veículo que se diz imparcial divulgar uma matéria destas sem nenhuma fundamentação científica ao grande público desinformando sobre uma atividade tão importante para o país

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